Madame Blavatsky: Amores Ocultos — A Presença que Persiste
- Lord A Andreas Axikerzus Sahjaza
- 27 de mai.
- 6 min de leitura
Um pouco de review, de ensaio ao sabor de chá de hibisco e kartoshkas!

Fazia tempo que não assistia uma peça teatral, neste caso um monólogo que não focaliza em representar e sim em evocar. Não é sobre contar uma história e sim convocar uma presença.
É nesse território entre sessão mediúnica e ritual performático que Madame Blavatsky: Amores Ocultos opera, com Mel Lisboa interpretando texto de Cláudia Barral e direção de Márcio Macena. E é precisamente por isso que este texto também não será apenas uma resenha.
A peça abre uma porta mais larga do que ela mesma e seria desonesto não atravessá-la.
A tese que a encenação sustenta, talvez sem querer declarar mas sabendo exatamente o que faz, é esta: Helena Blavatsky não é uma personagem histórica. É uma egrégora cultural. Uma corrente simbólica, uma máscara viva, uma presença que resiste ativamente no imaginário contemporâneo fora do tempo e do espaço.
Como dizia o iniciado e pesquisador Sérgio Pacca: "o adepto caminha através dos iniciados". É disso que a peça trata — e esse é o prisma pelo qual vale lê-la.
O que acontece em cena
O Teatro Estúdio, onde assistimos, oferece uma atmosfera acolhedora e intimista. Mel recebe a audiência em penumbra com um olhar que atravessa gentilmente a alma de cada um ao passarmos por ela; tal como aquele dos retratos da Madame Blavatsky.
E logo ela entra: misteriosa, majestosa, impregnada de um clima de teatro ritual que adensa o ar e não o larga mais. Um piano, uma adorável escrivaninha e trechos musicais eruditos tocados no piano onde escutamos a ponta de suas unhas golpeando as teclas.
Uma atmosfera especial.
Não é um monólogo linear — ainda bem. O espetáculo funciona como sessão mediúnica:
Helena vem e apresenta sua vida, escolhas, aliados, tropeços e perdas de maneira humana e natural. As visões espirituais na infância. A partida da Rússia.
A experiência perturbadora com os irmãos Eddy em Chittenden, Vermont — onde em 1874 ela e o Coronel Olcott se encontraram pela primeira vez, atraídos pelas sessões dos médiuns William e Horatio Eddy, e de onde nasceria a Sociedade Teosófica.
Annie Besant, que chegaria mais tarde, apenas nos dois últimos anos da vida de Blavatsky, mas com força de uma sucessora natural. Todos esses episódios surgem não como biografia encenada, mas como matéria viva de uma alma que ainda tem contas a abrir.
Mel Lisboa sustenta esse fio com presença e precisão. Não há caricatura nem reverência excessiva — há encarnação. A atriz não representa Blavatsky: ela a deixa usar seu corpo, como propõe a estrutura do próprio texto. O resultado é uma figura que oscila entre o humano e o arquetípico da maneira mais interessante possível.
O que a peça lembra que esquecemos
Algo que apreciei de forma particular foi o monólogo não ter varrido para debaixo do tapete o contexto dos teatros, debates e espetáculos que Blavatsky conduziu em vida com maestria. Algo comum, popular e acessível naquele tempo — e que hoje parece ter sido propositalmente apagado da memória do ocultismo.
Naquele tempo não existia rádio como veículo de massa — a radiodifusão pública só se consolida por volta de 1920 — nem redes sociais. Apenas teatros e jornais. Livros? Caros, assim como hoje. Logo, entre os séculos XVIII e a primeira metade do XX, os ocultistas atuavam simultaneamente como performers públicos, conferencistas, dramaturgos ritualísticos e celebridades intelectuais.
No programa: debates, encenações, danças rituais, hipnoses coletivas, educação hermética teatralizada. Só se diferenciava do TikTok pela venda de ingressos — para os mais novos entenderem.
Essa linhagem é longa e gloriosa. Cagliostro, Mesmer, Eliphas Levi, Papus, Joséphin Péladan, Samuel Liddell MacGregor Mathers e Moina Mathers da Golden Dawn, Rudolf Steiner, Aleister Crowley, Dion Fortune, Gurdjieff — todos entenderam que o esoterismo e a tradição não sobreviveriam apenas como doutrina secreta ou texto hermético.
Era necessário transformá-los em experiência viva: palco, atmosfera, ritual público, simbolismo e impacto sensorial. Algo menos verborrágico, cheio de fórmulas e certezas e muito mais imagético em todo seu esplendor.
Dessa fusão nasceram influências decisivas sobre o simbolismo, o surrealismo, o teatro ritual, os happenings, o psicodrama, a cultura gótica, a música industrial e boa parte do ocultismo contemporâneo.
Um ritual sempre foi uma somatória bem orquestrada de poesia, imagem, posturas e música, levando a uma experiência além do próprio ego, focalizada em atmosfera e contexto metafísico. Algo que a comunidade Vampyrica sabe muito bem há mais de cinquenta anos.
Mas que aparentemente nossos pares no ocultismo em outras escolas e linhagens temem olhar e se reconhecerem pelo que acaba sendo e não pelo que idealizam que são ou que esperam atender e agradar a terceiros. Alan Moore e xamãs do passado ainda tem o que dizer na maneira como ideias vestidas por palavras habitam a realidade.
A peça, ao evocar esse aspecto, não apenas homenageia Blavatsky — ela reinsere a tradição no seu meio natural.
O peso de ser mulher no invisível
Nenhuma análise honesta desse universo pode ignorar o que Blavatsky, Annie Besant, Dion Fortune e Moina Mathers carregaram que seus colegas homens não precisavam: a suspeita permanente.
Enquanto Crowley e Gurdjieff foram romantizados como gênios obscuros ou anti-heróis culturais — figuras que a posteridade tende a tratar com indulgência estética —, as mulheres ocultistas eram mais facilmente retratadas como histéricas, manipuladoras ou farsantes.
Havia críticas legítimas a fraudes e exageros em diversos círculos esotéricos. Mas havia também misoginia estrutural de primeira grandeza. O arquétipo da mulher ligada ao invisível, ao rito e ao saber simbólico historicamente desperta fascínio e hostilidade de forma simultânea até hoje.
A peça revive esse peso sem didatismo e acerta em cheio: não é uma lição sobre gênero, é uma presença que carrega a cicatriz.
Há nessa linha um elo preciso e frequentemente ignorado: o Montparnasse dos anos 1930, onde Maria de Naglowska — russa como Blavatsky, sacerdotisa da sua própria ordem, professora de magia sexual numa Paris entre guerras — congregava em conferências semanais ocultistas, surrealistas e vanguardistas de toda laia. Man Ray, André Breton, Julius Evola passaram por aquelas sessões às quartas à noite.
O clima de teatro ritual nos une a essa linhagem de mulheres que se fizeram por si diante do invisível e de uma sociedade que não as perdoava por isso.
O que permanece

O espetáculo dialoga menos com a teosofia institucional e muito mais com o teatro ritual, o romantismo esotérico e a estética iniciática — onde mito, performance e evocação simbólica frequentemente possuem mais força cultural do que a precisão doutrinária ou histórica.
Assistir a essa encenação nos aproxima de uma Blavatsky que a gente gostaria de conhecer: para uma conversa cabeça, enquanto se saboreia um chá de hibisco e algumas kartoshkas — adorável doce russo que também apreciamos —, algo infinitamente mais interessante do que a esfinge monumental e quase institucional que transformaram sua pessoa e obra no presente.
Madame Blavatsky: Amores Ocultos é uma experiência que pertence ao mesmo território que pretende evocar: não é sobre o sagrado, é do sagrado. Você deve assistir tão logo puder — e levar alguém que precise ser perturbado de forma gentil.
Serviço: Madame Blavatsky – Amores Ocultos com Mel Lisboa
Onde assistir
A peça está em cartaz no Teatro Estúdio, em Campos Elíseos, região central de São Paulo. (Catraca Livre)
📍 Endereço:Rua Conselheiro Nébias, 891 — Campos Elíseos — São Paulo/SP. (Radar 360)
🚇 Metrô mais próximo:Estação Santa Cecília (Linha Vermelha), cerca de 600 metros do teatro. (Radar 360)
Datas e horários
📅 Temporada:De 4 de maio a 7 de julho de 2026. (Catraca Livre)
🕗 Sessões:
Segundas-feiras — 20h
Terças-feiras — 20h (Catraca Livre)
Ingressos
🎟 Valores:
Meia-entrada a partir de R$ 50
Inteira até R$ 100/120 dependendo do setor e lote. (Catraca Livre)
🛒 Venda online:Sympla / ingressos oficiais
Sobre o espetáculo
Com dramaturgia de Claudia Barral e direção de Marcio Macena, o monólogo transforma Helena Blavatsky numa presença quase ritualística em cena. A montagem mistura:
teatro psicológico;
ocultismo;
incorporação mediúnica;
fragmentação narrativa;
performance simbólica. (Catraca Livre)






Comentários