The Vampire Lestat: O Príncipe Moleque e a Política da Narrativa
- Lord A Andreas Axikerzus Sahjaza
- 3 de jun.
- 7 min de leitura
Atualizado: 3 de jun.
por Rede Vampyrica | junho de 2026

Toda narrativa é um ato de poder.
Quem conta a história decide quem vive, quem sangra e quem é lembrado. É com essa consciência — feroz, petulante, perfeitamente lestatiana — que a AMC inaugura sua terceira temporada da saga Anne Rice.
A nova temporada agora é "The Vampire Lestat", vem com um título novo, uma perspectiva radicalmente diferente das duas anteriores "Entrevista com o Vampiro" e uma pergunta que afiada: e se o vampiro que você achava que conhecia resolvesse escrever o próprio álbum?
The Vampire Lestat estreia em 7 de junho de 2026. E começa pelo fim.
Um leilão. Os pertences do Príncipe Moleque. Uma prensagem única em vinil de um álbum chamado The Failures. Louis está presente. Armand também — curiosamente com um tapa-olho. Lestat, não. E é exatamente essa ausência que transforma a temporada inteira em um flashback rumo a um mistério: o que aconteceu com ele? O que aconteceu com o olho de Armand?
A estrutura é brilhante porque é honesta consigo mesma. Assim como Louis monopolizou as duas primeiras temporadas com sua versão dos eventos, Lestat agora assume o microfone — literalmente.
Ressentido com o retrato superficial que fez dele o bestseller de Daniel Molloy, Lestat decide corrigir a história do único modo que lhe parece adequado: formando uma banda de glam rock e saindo em tour por 54 cidades.
O narrador não confiável vira rockstar.
A memória vira setlist.
Fledgling: a palavra que carrega mundos
Aqui vale uma pausa estratégica para quem habita o Campo Vampyrico.
Fledgling — o neófito, o recém-transformado, o que ainda não aprendeu a voar — é também o título do último romance de Octavia Butler, a escritora negra norte-americana cujo legado reconfigurou o que a ficção científica e o fantástico podiam fazer com raça, corpo e poder.
No livro de Butler, uma jovem aparentemente amnésica descobre que é uma vampira de espécie diferente, com necessidades e vínculos que desafiam qualquer taxonomia humana. É um romance sobre pertencimento, autonomia e o que significa ser criado por alguém que também te domina.
A coincidência terminológica não é inocente. Em The Vampire Lestat, o fledgling mais explosivo da temporada não é nenhum neófito anônimo: é Gabriella, a mãe de Lestat, interpretada com virtuosismo por Jennifer Ehle

A personagem é transformada pelo próprio filho em vampira. Mãe e fledgling. Criadora e criatura. O vínculo que deveria ser vertical torna-se em espiral, e a série não desvia do incesto explícito que Rice já havia inscrito nos livros. É perturbador.
É trágico. E é, segundo os próprios críticos, fiel ao texto original — ainda que a adaptação perca a radicalidade da Gabrielle literária, que rejeitava o gênero de forma marcante.
Butler entenderia o horror afetivo disso. Ela sempre soube que a vampira mais assustadora não é a que bebe sangue, mas a que cria dependência e a chama de amor.
A Rainha que desperta devagar
Se Gabriella é a bomba-relógio emocional da temporada, Akasha é o horizonte apocalíptico.
Interpretada por Sheila Atim — atriz que já demonstrou sua envergadura em The Woman King —, Akasha aparece dosada, estrategicamente reservada para os episódios finais.

Sua presença é o presságio da Great Conversion: um aumento não natural na população vampírica, uma virada na ordem do Campo que ressoa como todo colapso iniciático ressoa — não com estrondo, mas com o silêncio que antecede o dilúvio.
O que a série faz com Akasha é inteligente: não a esgota. A mantém como promessa. Uma hipotética quarta temporada absorveria o restante do material de Queen of the Damned, e a semente está plantada com precisão cirúrgica.
A música como arma simbólica

Daniel Hart, compositor da série desde o início, escreveu mais de vinte músicas para esta temporada. Trabalhou lado a lado com o showrunner Rolin Jones na sala de roteiristas, chegando a coescrever um episódio.
O resultado é uma dramaturgia sonora em que cada single lançado — Long Face, All Fall Down, Your Biggest Fan, o cover de Dancing With Myself — não é trilha: é personagem.
Long Face já figura nos meus Djsets desde que apareceu nas redes sociais em 2025 e vem sendo uma experiência fascinante discoteca-la nos eventos e ver carinhas de "ué, que som é esse" nos eventos Vamps e Darks que frequento. A pegada Jean Genet, do David Bowie está ali, bem como em toda interpretação do Sam Reid. A versão de Dance with myself e butterscotch Bith são promissoras também. Embora seja fã da trilha sonora do filme "Queen of the Damned" e seu nu metal, basicamente criado pelos maiores músicos daquela época; curti bastante esta nova roupagem glam da série Vampire Lestat. Assim como apreciei o lendário musical da Broadway. Mais e mais Lestat se desvela em incontáveis camadas vampirescas. Dj Lord A:.
A AMC criou perfis reais para The Vampire Lestat no Spotify, Apple Music e Amazon Music. O Pitchfork fictício da série deu 3.1 ao álbum de estreia. Lestat leu a crítica deitado no caixão, com rancor. É a cena mais engraçada — e mais verdadeira — da temporada.
Toda era vampírica exige seu veículo.
Rice usou o romance gótico. Coppola e Jordan usaram o cinema. A AMC usa a série de prestige drama com a consciência de quem sabe que o vampiro sobrevive porque muda de forma — mas nunca de essência.
O Príncipe Moleque acordou. Ele tem um álbum. E o álbum chama-se Os Fracassos.
Só ele saberia fazer disso um manifesto.
LESTAT NA MINHA VIDA
Lestat figura em minha vida desde o início dos anos noventa, foi o primeiro livro de Anne Rice que saboreei, inicialmente lí as crônicas a partir dele.
Não eram muitos, “Rainha dos Condenados” impressionava, “Ladrão de Corpos” era um meio de campo modorrento e então vinha “Memnoch” que foi o meu favorito. Acabei lendo Entrevista com o Vampiro por último - e sim, não suportava o Loui - isso só melhorou no final das Crônicas Vampirescas.
E é claro que torço para que todos sejam adaptados para o audiovisual.
Ainda assim sou cético com o que virá nesta nova temporada. Quando foi Entrevista com o Vampiro, achei a metade da segunda temporada bacana. A primeira e parte da segunda temporada não me empolgaram, falo disso aqui.
No meu livro “Deus é um Dragão” (Penumbra Livros, 2019) inclui um anexo chamado “Do que aprendi com Lestat e Anne Rice” que carrega um tom nostálgico e biográfico desse tempo junto do meu “santo padroeiro” da cultura pop.
Aliás, contamos a história e celebramos a trajetória de Lestat neste artigo da década passada. A história de Akasha é contada neste outro artigo.
Nos tempos da Fangxtasy, no saudoso Poison Bar e Balada, fizemos duas montagens de cenas de Anne Rice, onde Akasha foi interpretada pela Rainha Xendra Sahjaza e eu tive a oportunidade de experimentar interpretar Lestat, compartilhamos essas experiências aqui e aqui também. O figurino foi inteiramente criado à mão pela gente no atelier do meu pai.
Interessante que nessa época (2014) a Anne Rice ainda convertida ao cristianismo, se afastou e anunciou a vinda de três livros novos que encerravam as Crônicas Vampirescas. Sim, falamos de Príncipe Lestat, Principe Lestat e o Reino de Atlântica e Comunhão de Sangue.
Isso aconteceu no podcast de seu filho Cristopher, exatamente no domingo depois que encenamos pela segunda vez seus personagens. Estranho presságio. Contamos esta história neste artigo e falamos do livro também.
A própria Carmilla Noite de Gala Sombria e nosso relacionamento com a Mansão Hasbaya vem de 1994, quando eu assisti a primeira adaptação cinematográfica “Entrevista com Vampiro” no Cine Gazeta.
E depois ia passear na Rua dos Franceses ali perto, namorar aquela linda mansão enquanto desenhava sua fachada no meu sketchbook. Eu nem sonhava como décadas depois, lá se tornou o lar da nossa Noite de Gala Sombria.
A passagem de Anne Rice, há alguns anos atrás, foi homenageada também em uma edição da Fangxtasy, no Belle Epoque, há poucos quarteirões de onde ficou o Poison no passado.
Lá recriamos a atmosfera de New Orleans com drinks exclusivos inspirados nos personagens e também na talkie sobre Hoodoo de New Orleans conduzida por Dani Spallanzani do apotecário Coven 1692 e o som de música ao vivo de Jazz Manouche e depois discotecagem.
Desejamos sorte a AMC e aos produtores da série The Vampire Lestat: “Sucesso”. Nos surpreendam! Saudações de Lord A:.
The Vampire Lestat: One Night Only
2 de junho de 2026, Beacon Theatre, Nova York.
Na parada final da decadente tour norte-americana, o Beacon Theatre foi transformado em uma catedral do caos. A noite começou com a exibição exclusiva do episódio de estreia — o primeiro contato do público com a temporada — seguida pela performance ao vivo de Lestat.
A produção foi total. Desde a entrada, os convidados receberam petiscos e bebidas, e cada assento tinha uma sacola com brindes exclusivos: a capa da Rolling Stone de The Vampire Lestat, um disco colecionável em miniatura e um QR code dourado para merchandise disponível apenas na noite.
Jacob Anderson, Eric Bogosian (seguidor da @redevamp), Assad Zaman e Delainey Hayles estavam presentes e sentados no meio do público — não em camarote — gerando uma energia coletiva de gasps, risos e aplausos durante a exibição.
Nossa amiga e seguidora Mabs Redel, esteve lá e compartilhou video na rede social com apoio de nossos parceiros da @VampireFreaks, onde Lord A discoteca neste sábado 6.06.2026.
O show ao vivo foi descrito como uma vitrine de glam rock puro, com Sam Reid em modo rock god completo, performando as músicas originais de Daniel Hart. Reid havia antecipado que haveria músicas inéditas no setlist — canções ainda não lançadas publicamente.
O evento terminou com a temporada marcando 100% no Rotten Tomatoes no mesmo momento em que o embargo era levantado. A conclusão do jornalista presente foi direta: o marketing televisivo acabou de mudar para sempre.







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