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A Honra Vampyrica

25 de ago.
14 min de leitura

O que ficou do rito de abertura da Carmilla 2026 — a Honra Vampyrica, ou Aretê Vampyrica

Por Lord A:. (Andreas Sahjaza) — Rede Vampyrica



"Vista seu Daemon, aquilo que te torna intenso agora e no presente. Vista a sua extravagância e se entregue à noite."

Todo fogo deixa alguma coisa quando termina de queimar. Cinza, quase sempre. Às vezes, metal - ou ainda aquilo que pode suportar a forja e os golpes incessantes do Destino. Ou a pressão que torna o carvão em diamante, negro.


O rito de abertura da Carmilla deste ano tinha por tema a palavra IMORTAL, e eu entrei nele sem saber exatamente o que ou ainda como sairia do outro lado. Mais de duas décadas de Corte de Antares & Amantkir mal cabem numa noite, e eu não pretendia resumi-las.


Pretendia deixá-las arder e ver o que permaneceria.


O que permaneceu foi uma ideia que ainda não tínhamos nomeado, embora a viéssemos vivendo o tempo todo — na verdade, embora a viéssemos celebrando por vinte anos sem lhe dar o nome que este texto agora oferece. Escrevo para nomeá-la, porque coisas que não recebem nome acabam roubadas, diluídas ou esquecidas.


Chamo-a de Honra Vampyrica — ou, para dizer com a palavra que os gregos tinham e nós perdemos, Aretê Vampyrica. Os dois nomes são um só, e ao longo deste texto vou usá-los assim, porque um traz o que o outro deixa de fora: honra é a palavra que a comunidade viveu, "aretê" é a que a explica. E preciso ser preciso sobre o que ambas significam, porque quase tudo que já circulou sob rótulo parecido foi outra coisa.


O que ela é


Já disse que "aretê" é a palavra grega que carrega isto melhor que qualquer outra. Vale demorar nela. Costuma-se traduzir por virtude, mas a tradução engana, porque virtude soou moral demais depois de vinte séculos de cristianismo. Aretê é excelência no sentido de realização plena: a excelência da faca é cortar, a do cavalo é correr, a do olho é ver.

Cada coisa tem uma natureza, e a aretê é essa natureza levada ao seu ponto mais alto, sem desperdício e sem desculpa.


A Honra Vampyrica é a aretê aplicada a quem se reconhece nesta noite. Não é um código de boas maneiras. Não é gentileza. Não é seguir regras para ser aceito. É ser inteiramente aquilo que a própria natureza pede, com soberania sobre si mesmo e sem gastar a vida em coisa pequena.


Isso é mais difícil do que qualquer código de conduta, porque um código você cumpre por fora e a "aretê" você realiza por dentro. Ninguém fiscaliza. O único juiz é aquilo que você poderia ter sido e não foi. As virtudes sempre foram sobre o que é vivido e praticado, reconhecida por terceiros sem precisar ser anunciada e impossível de ser perfomada ou "fakeada",


O que ela não é


Preciso dizer isto com clareza, mesmo correndo o risco de incomodar, porque a Honra Vampyrica se define tanto pelo que recusa quanto pelo que afirma.


Houve, no fim dos anos noventa e ao longo dos anos dois mil, um certo modo de habitar a comunidade vampyrica que se apresentava como aristocracia da noite e era, no fundo, outra coisa. As casas da ladainha, o baixo clero da cena. Um machismo elegante na roupa e pobre no gesto. Rapazes que colecionavam e descartavam meninas com a regularidade de quem nunca encontra em ninguém aquilo que procura — e não encontra porque, freudianamente, procura a própria mãe em cada rosto e some quando o rosto se revela ser de outra pessoa. E é bem sabido que esse povo nunca deu conta de conviver e coexistir com mulheres reais e da vida como ela acaba sendo. Ego despedaçado disfarçado de mistério, confundindo intensidade e profundidade com surto egóico. Ausente de argumentos com egos descompensados e violência gratuíta verbal ou física a quem não atendesse seus mandos e desmandos, A encarnação da carência usando capas. Aquilo se apresentava como grandeza e era o oposto exato dela.


No nosso vocabulário há um nome preciso para isso: síndrome de pequeno poder. A performance da grandeza executada por quem não a tem, sustentada pela plateia certa e pela vítima certa. Não é aristocracia. É a caricatura que os plebeus fazem da aristocracia quando nunca conheceram nenhuma de verdade.



A Honra Vampyrica nasce, em parte, como a recusa de todo esse papo furado de síndrome de pequeno poder e comportamento de seita das casas da ladainha e do baixo clero. Porque durante anos essa falsificação ocupou o lugar da coisa real, e muita gente boa foi embora acreditando que aquilo era o vampirismo, quando aquilo era apenas homens pequenos performando estatura que nunca tiveram - lâminas mal temperadas sem fio se passando por cruzados perdidos no próprio ego.


Felizmente nossa Corte de Antares e Amantkir provinha de raízes mais autênticas e anteriores as dos mesmos através do legado da Dinastia Sahjaza - e manteve-se leal a tais principios através das décadas. Celebramos isso no Ankh Antares e Amantkr,


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Por que o Fogo?


Escolhi o Fogo como o elemento desta honra, e não por acaso.


Nas matrizes culturais que formaram este país, e numa quarta que veio do deserto, o Fogo nunca foi principalmente o elemento da destruição. Foi o da transmissão soberana a centelha que passa de mão em mão sem pedir licença a nenhuma autoridade de fora e, no seu grau mais alto, o do amor que consome quem a ele se entrega.


O Fogo também representa a "Techné"  (τέχνη) que nunca e jamais foi apenas “técnica” ou habilidade manual. Era o conhecimento capaz de produzir, transformar e dominar a matéria segundo princípios, aproximando o ser humano daquilo que os deuses realizavam. O fogo de Prometeu simboliza precisamente essa passagem: ao roubar o fogo divino e entregá-lo aos humanos, Prometeu lhes oferece não somente calor, mas a possibilidade de cozinhar, forjar metais, fabricar instrumentos, construir cidades e desenvolver artes.


Assim, o fogo representa uma forma primordial de téchnē: transformar o mundo por meio do conhecimento e da capacidade de fazer. O preço é a responsabilidade. A técnica emancipa, mas também cria poder e consequências. Prometeu, portanto, pode ser compreendido como arquétipo daquele que entrega à humanidade o poder de transformar a realidade.


O fogo é consciência quando ilumina; presença quando permanece aceso; vontade quando se orienta; e "techné" quando transforma aquilo que compreendeu em realidade. Isso permanece se desenvolvendo nos ritos contínuos da Aurora Vampyrica.


Na Europa latina, o Fogo é o de Prometeu, que o roubou dos deuses para entregá-lo aos homens e foi castigado por isso — o Fogo como autonomia arrancada à força de quem queria mantê-la trancada. É também o ignis dos alquimistas, o fogo secreto que não queima a matéria, cozinha-a até que ela se transforme. Giordano Bruno morreu numa fogueira em Roma no ano de 1600 por não recuar de suas ideias, e há algo exato nisso: o fogo que o matou por fora era o mesmo que ele carregava por dentro e que se recusou a apagar.


Nas matrizes africanas, o Fogo é o de Xangô, senhor da justiça e da realeza, e o da forja de Ogum, que transforma metal em ferramenta e em caminho. Aqui o Fogo é autoridade legítima, mas legítima porque transmitida por iniciação e por linhagem, não decretada de cima. É soberania que se herda pelo rito, não pela imposição e jamais sem viver na vida como ela acaba sendo reunido aos pares.


Nos povos originários da América do Sul, o Fogo é o do centro da aldeia e o do xamã, que não representa o sagrado — encarna. É memória viva mantida acesa, não monumento congelado. O fogo que não se deixa virar museu.


E há uma quarta chama, que vem do deserto e diz o que as outras três não dizem. No sufismo, o Fogo é amor, e o amante é o tronco que arde nele. A história de Layla e Majnun conta isto sem meias palavras: Majnun ama Layla até deixar de existir separado dela, até que o próprio nome — Majnun, o possuído — seja só a marca do que o fogo fez com ele. Amor é chama, e nós somos os troncos que ardem.


E não trago esses dois amantes de fora para dentro do texto. Eles já estavam na noite. Quem subiu a escadaria principal da Mansão Hasbaya durante a Carmilla passou por baixo deles sem sempre saber: Layla e Majnun estão no grande vitral que preside a escada, olhando de cima quem atravessava o rito do Fogo. O amor que consome já estava lá, em luz e chumbo, dizendo em silêncio o que a noite ainda ia nomear. Subir aquela escada é, ele mesmo, um pequeno Amantkir — o eixo vertical, a montanha por onde se sobe, com os amantes ardentes marcando o cume.


Onde as três primeiras matrizes ensinam a guardar o fogo e permanecer soberano sobre ele, esta ensina a outra metade: que a soberania mais alta é escolher arder. O tronco não retém a chama. Ele vira chama ao ser consumido, e é nessa entrega, e não na posse, que se torna o que o fogo é. Não por acaso Amor é o primeiro dos quatro pilares do nosso rito.


Ele é a chama; os outros três são o que resta de pé depois que ela passa.


As quatro dizem a mesma coisa por caminhos diferentes. Quem guarda o fogo tem autonomia sobre aquilo que cria e sobre a maneira como isso se transmite — e quem arde no fogo por vontade própria tem a autonomia ainda maior de escolher a própria consumição. Foi por isso que o rito de abertura precisou de fogo, e é por isso que a honra que dele saiu é ígnea.


Vinte anos antes de eu lhe dar um nome


Aqui devo confessar uma coisa que muda a leitura de tudo que escrevi até agora.


Eu falei como se a Honra Vampyrica tivesse nascido no rito de abertura deste ano. Não nasceu. O que nasceu neste ano foi o nome. A coisa em si nós celebramos, todo ano, há duas décadas — e com tanta precisão que os quatro nomes que lhe demos desde o começo já eram, sem que eu percebesse, a definição inteira que passei este artigo tentando construir.


Desde 2006 realizamos, na Convenção de Bruxas e Magos de Paranapiacaba, o nosso Rito Vampyrico Anual. Ele tem quatro pilares, e são estes: Amor, Honra, Caráter e Fogo Estelar.


Vinte anos completos, celebrados em 2026, no mesmo ano em que o Círculo Strigoi também alcança suas duas décadas. Vinte anos dizendo essas quatro palavras antes de eu realmente tirar um tempo para explicá-las.


Leia os quatro pilares agora, à luz de tudo que veio antes, e veja se não é a Honra Vampyrica inteira.


Amor é o que move — o eros que irradia em vez de extrair, a razão pela qual, lá atrás, eu disse "chega de ser sozinho, vamos compartilhar". Honra é a aretê propriamente dita, a excelência que se realiza por dentro. Caráter é o que resta quando o fogo queima a escória: a coerência entre o que se cria e aquilo em que se acredita, a soberania de vestir o próprio Daemon sem ser vestido por ele. E Fogo Estelar é o quarto, o que coroa os outros — não o fogo terreno da forja, mas o fogo das estrelas, o que desce do alto.


Os quatro não são etapas de um caminho. São pilares, colunas que sustentam a mesma estrutura ao mesmo tempo. E nenhum deles é promessa de futuro. Amor é presente ou não é amor. A honra se prova no ato, nunca na intenção. Caráter é o que você é agora, no olho no olho, não o que jura ser um dia. E o Fogo Estelar não é a espera da luz — é o instante em que a luz encontra o olho. Os quatro pilares são quatro modos de habitar inteiramente o presente. Foi sempre disso que o rito tratou: não da vida que virá, mas da que está acontecendo enquanto o fogo arde.


Antares e a montanha


Preciso demorar no quarto pilar, porque é nele que a Corte inteira se explica.


Fogo Estelar tem um nome próprio no nosso céu: Antares. A estrela que dá nome à Corte de Antares & Amantkir, o coração ardente da constelação do Escorpião, uma supergigante vermelha cuja luz viaja séculos antes de tocar um olho na Terra. E aqui está a chave do tema deste ano. A luz de Antares que você vê esta noite partiu há centenas de anos.


A estrela pode ter mudado, no intervalo. E nada disso importa — porque o que existe, quando o seu olho encontra aquela luz, é o encontro, agora, completo em si.


Não é a viagem da luz que é imortal. É o instante em que ela chega ao olho. Imortal não é durar para sempre. É o presente vivido com intensidade suficiente para não precisar de nenhum depois.


Foi por isso que o tema deste ano foi IMORTAL, e por isso que ele conversa com o Fogo Estelar de vinte anos atrás como se um respondesse ao outro através do tempo. Os dois dizem a mesma coisa: o valor não está no futuro garantido, está no encontro presente que basta a si mesmo.


E há a segunda metade do nome. Amantkir é a montanha, o eixo vertical, o que liga a terra ao céu. A cosmologia da Corte está inteira nas duas palavras que a nomeiam: Antares é o fogo estelar, o alto, a estrela-coração de onde a luz desce; Amantkir é a montanha por onde se sobe para recebê-la.


A Corte de Antares & Amantkir é, ela mesma, o encontro entre o fogo das estrelas e o eixo que permite alcançá-lo. Não se espera a luz. Sobe-se a montanha e recebe-se a luz agora, no cume, no presente, olho na estrela.


Vinte anos de rito celebraram isto antes de eu ter as palavras. A Honra Vampyrica é o nome filosófico de algo que a Corte já sabia fazer com fogo, montanha e estrela muito antes de saber dizer em grego.


O fogo e a criação


Há uma consequência disto que ultrapassa a cena vampírica e toca em algo que ando pensando há tempos sobre o que significa criar de verdade.


Passei muito tempo definindo o subterrâneo, o que se costuma chamar de underground, pelas coisas erradas. Pelo obscuro, pelo antigo, pelo que se opõe ao gosto da maioria. Nenhuma dessas definições resiste, porque todas dependem de um espelho: você só é obscuro em relação a uma luz que não é sua, só é antigo em relação a um presente que não é seu, só é contra o mainstream se deixa o mainstream definir onde fica o centro.


A definição que sobrevive é outra, e o Fogo a ensina. Underground é ter autonomia sobre aquilo que se cria. Não estar fora do mainstream — possuir fogo próprio suficiente para criar sem que ninguém precise autorizar a sua existência. Em poucas palavras o underground é até onde você mantem a autoria, a originalidade, a realização e as rédeas do que irradia, expressa e realiza - e isso é a razão de falarmos tanto da importância do fogo hoje.


Saber isso reorganiza tudo.


Deixa de importar se você é grande ou pequeno, conhecido ou secreto. Uma obra pode se tornar imensamente popular e conservar inteira a sua origem soberana, desde que quem a criou mantenha a autoria, o controle e a direção do que ela significa. E alguém pode viver numa cena minúscula, fechada e obscuríssima e não produzir nada de próprio, porque apenas repete fórmulas, tendências e códigos que outros inventaram.


O tamanho não decide. A posse do fogo decide.


A frase que eu usava antes estava errada, e a corrijo aqui. Eu dizia que o subterrâneo perde a alma quando começa a criar porteiros. Não é isso. O subterrâneo deixa de existir quando perde o controle sobre aquilo que cria. A diferença é toda: porteiro é detalhe de administração, controle criativo é a coisa em si - e o que há de mais importante.


E a partir disso a Honra Vampyrica ganha o seu contorno prático, que enumero não como mandamento, mas como as guardas do fogo:


Criar sem depender da validação de quem manda. Saber quem cria, quem preserva e quem transmite cada obra e cada rito. Não deixar que terceiros definam o significado daquilo que é seu. Construir os próprios canais, eventos, estética e comunidade. Manter coerência entre o que se cria e aquilo em que se acredita, o que é diferente de encenar autenticidade o dia inteiro.


Conhecer a própria história, porque quem não a conhece tem os símbolos esvaziados por qualquer um. Ensinar a geração seguinte sem exigir que ela seja cópia da anterior.


Acolher os que chegam sem que os veteranos se tornem donos da cultura. Poder mudar, porque o que não pode mudar já morreu.


E deixar algo capaz de sobreviver a quem o criou.


Nenhuma dessas guardas é sobre ser diferente. Todas são sobre guardar o fogo.


Não fui só eu quem reconheceu


Preciso registrar uma coisa, para que este texto não seja lido como um decreto meu.


Depois do rito, ainda com a noite acontecendo, houve conversas gravadas com várias pessoas que tinham acabado de atravessar a mesma abertura. Gente de trajetórias que não se parecem: um homem que se veste assim chamado de Conde na rua, um rapaz de vinte e poucos que chegou pela estética e se diz ateu, um roqueiro que largou o álcool há nove meses, alguém que pegou um voo sozinho de Brasília só para se permitir a experiência. Ninguém combinou nada.


E, cada um à sua maneira, disseram peças do que este artigo tenta nomear.


Um disse que não é visual, não é fantasia, não é o frio nem o calor — que ele é aquilo, o tempo todo, quando ninguém filma. Isso é a aretê dita na língua da rua: a coincidência inteira entre ser e aparecer. Outro disse que os verdadeiros continuam e que o que é moda passa, que o sujeito daqui a pouco arruma outra vida e esquece a fase — a distinção entre o fogo próprio e a chama emprestada, formulada por quem nunca leu uma linha sobre aretê.


Outro disse que é preciso deixar o esquisito virar normal, que ninguém ali é mais nem menos que ninguém — a comunidade sem tutela, uma das guardas do fogo, dita espontaneamente por quem apenas sentiu a noite.


Isso importa mais do que qualquer argumento que eu pudesse construir sozinho. Porque significa que a Honra Vampyrica não é uma ideia que eu decretei do alto de mais de vinte anos de prática. É algo que várias consciências diferentes, atravessadas pela mesma noite, reconheceram cada uma a seu modo. Eu não a inventei. Eu a ouvi sendo dita em muitas vozes, e apenas lhe dei o nome que faltava.


Foi por isso que soube que ela era real. Uma ideia que só o fundador enxerga é doutrina. Uma ideia que muitos reconhecem quando o fogo passa por eles é outra coisa — é aquilo que já estava lá, esperando ser nomeado.


O que veio da noite


Volto ao rito, porque é dele que tudo isto saiu e é a ele que devo prestar contas.


O tema era IMORTAL, e a palavra, para nós, nunca significou não morrer, nem durar para sempre, nem voltar num futuro qualquer. Imortal é o presente vivido com intensidade suficiente para não precisar de nenhum depois. É o olho no olho, o instante em que a luz da estrela encontra quem a olha. E podemos ir até mais além.


Não é aposta sobre o porvir nem promessa de uma era vindoura. É agora, ou não é nada. E foi exatamente isso que a noite afirmou: não a fantasia de continuar existindo, mas a constatação de que aquilo que se forjou com autonomia ao longo destes anos está inteiro no presente, e não pede licença a futuro nenhum para valer. E acredito piamente que estes 2 parágrafos do tópico são pontuais e diretos o suficiente.


O céu daquela noite dizia a mesma coisa, para quem sabe ler cartas astrológicas, neste caso tenho o privilégio de contar com Herminio Portella (Sinais do Destino) para balizar e me desenvolver nesta arte. Lilith reinava no ponto mais alto, a figura que não levanta bandeira de sistema nenhum porque é a própria bandeira. O Sol brilhava na casa da criação, no signo do leão, a criação soberana coroada. Signos de fogo ocupavam o topo do mapa. Não afirmo que os astros causaram coisa alguma. Digo apenas que o céu, o rito e a ideia que dele nasceu estavam de acordo, e esse acordo era ele próprio parte da mensagem.


O que veio da noite foi isto: depois de vinte anos celebrando os quatro pilares e mais de duas décadas sustentando a Corte, sabemos com clareza a diferença entre a grandeza e a sua imitação. A imitação foi o baixo clero de capa, o pequeno poder performando grandeza sem nunca a ter exercido e testemunhado, o homem despedaçado se vingando em quem cruzava seu caminho. A grandeza, é outra coisa, é a aretê, a excelência realizada, o fogo guardado e transmitido sem submissão.


A Honra Vampyrica é o nome daquilo que ficou quando o resto queimou. Não a proponho como regra a ser obedecida. Apresento-a como aquilo que já vivíamos sem saber dizer, e que a noite finalmente nos fez dizer, nomear e assim vivermos.


O fogo continua aceso.


Foi para isto que a noite serviu — não para acendê-lo, que já ardia há vinte anos de rito e mais de duas décadas de Corte, mas para nos mostrar, enfim, o seu nome.


E o nome, no fim, cabe numa frase que disse quase sem pensar, ainda dentro da noite, e que só depois entendi ser o resumo de tudo:


Vista seu Daemon, aquilo que te torna intenso agora e no presente. Vista a sua extravagância e entregue-se à noite. Não é convite à fantasia. É a "aretê" em forma de gesto — vestir por vontade o que se é, e ter a soberania de habitá-lo sem ser habitado por ele. Essa é a honra. O resto é capa.

Leitura complementar:

  • [O Ankh de Antares & Amantkir — A Insígnia dos Vinte e Quatro Anos]

  • [O Tambor, o Traje e o Transe — O Espetáculo É a Linguagem Mais Antiga do Sagrado]

  • [O Ocultismo Nunca Foi Puro]

  • [Metamorfoses Incompletas — O Que É a Incompletude, e Como Atravessá-la]


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