Carmilla, o Vampiro e Nós — Parte 1: o que um museu austríaco entendeu que a maioria ainda não entendeu
- Lord A Andreas Axikerzus Sahjaza
- 2 de jun.
- 6 min de leitura
Atualizado: 10 de jun.
Por Rede Vampyrica — redevampyrica.com

"In Styria…"
Com essas duas palavras, Joseph Sheridan Le Fanu abre a novela que publicou em 1872 e que, vinte e cinco anos antes de Drácula, inventou o vampiro moderno como o conhecemos: aristocrático, erótico, psicológico, feminino e irredutível ao medo simples. A Styria — a Estíria, região montanhosa da Áustria central, hoje capital cultural em Graz — seria apagada do mapa vampírico quando Bram Stoker escolheu a Transilvânia. Mas a Estíria nunca desapareceu de fato. Apenas ficou esperando que alguém fizesse a arqueologia correta.
Em 2014, o GrazMuseum fez.
Carmilla, der Vampir und Wir — "Carmilla, o Vampiro e Nós" — foi uma exposição realizada entre 30 de janeiro e 31 de outubro de 2014 em Graz, seguida de um livro catálogo publicado pela Passagen Verlag no mesmo ano. O projeto reuniu pesquisadores internacionais de peso, curadoras com formação em história da arte, ciências culturais e estudos de gênero, e uma proposta que raras vezes se vê em exposições sobre o tema: tratar o vampiro não como curiosidade de entretenimento, mas como um dos arquétipos centrais da modernidade europeia.
Este artigo é a parte 1 de uma série. Aqui, mapeamos o que o projeto fez, por que importa e o que ele confirma sobre o campo que a Rede Vampyrica cultiva há mais de 25 anos.
O contexto: por que Graz, por que 2014
A escolha de Graz como sede desse projeto não foi arbitrária. Ela partiu de um dado histórico poderoso: a Estíria é o território onde o vampiro literário moderno nasceu.
"In Styria", assim começa uma das mais significativas narrativas vampíricas da história literária: Carmilla, a Gothic Novel publicada em 1872 pelo irlandês Joseph Sheridan Le Fanu. A ação se passa no Schloss Karnstein, um castelo fictício que pesquisadores identificam com o Schloss Hainfeld da Estíria oriental — propriedade que o capitão Basil Hall descreveu em seu livro de viagens de 1836, obra que Le Fanu provavelmente leu e usou como referência geográfica e atmosférica.
Trinta e seis anos depois, Sheridan Le Fanu fez do Schloss Hainfeld — sob o nome "Schloss Karnburg" — o cenário da novela Carmilla. E um quarto de século depois, o próprio Bram Stoker queria ambientar Dracula também na Estíria. A crescente fama da região como zona industrial em ascensão levou-o, entretanto, a deslocar a ação para a Transilvânia.
Esse dado — Dracula poderia ter sido estírio — é o ponto de partida arqueológico de todo o projeto. Se a escolha tivesse sido outra, a Estíria, não a Transilvânia, seria hoje o território mítico do vampiro literário ocidental. O que o GrazMuseum decidiu investigar foi exatamente essa contingência: como um lugar se torna geograficamente associado ao vampiro? Como a ficção cria territórios simbólicos que depois passam a ser tratados como fatos culturais?
A resposta que o projeto desenvolve é mais sofisticada do que parece: autores anglo-saxões do século XIX enxergavam a Estíria como parte do "leste mítico e sombrio" — uma zona liminar entre a racionalidade ocidental e o suposto primitivismo oriental. A Estíria vampírica foi, em grande medida, uma construção do imaginário britânico sobre a Europa Central. A ficção não apenas descreveu esse território — ela o inventou como território do vampiro.
O livro e quem o produziu
Carmilla, der Vampir und Wir foi editado por Annette Rainer, nascida em 1970 em Graz, curadora e historiadora da arte; e Christina Töpfer, nascida em 1981 em Leinefelde, curadora, redatora e cientista cultural — ambas residentes em Graz.
A equipe de contribuidores reunida para o livro é o indicador mais preciso da seriedade do projeto. Não são especialistas locais em folclore regional. São pesquisadores que definem o campo dos Gothic Studies e da vampirologia cultural internacionalmente:
Brian J. Showers — especialista em literatura gótica irlandesa e um dos maiores estudiosos de Le Fanu.
Elizabeth Miller — pesquisadora canadense considerada uma das maiores autoridades mundiais em Bram Stoker e Drácula, autora do ensaio "From Styria to Transylvania" que documenta os planos originais de Stoker para ambientar o romance na Estíria.
Laurence R. Rickels — teórico cultural alemão-americano, professor na Universidade da Califórnia, autor de The Vampire Lectures — obra de referência sobre o vampiro como símbolo psicanalítico e cultural.
Clemens Ruthner — professor de literatura e estudos culturais, especialista em literatura gótica da Europa Central.
Theresia Heimerl — teóloga e pesquisadora de religião e cultura que analisa o vampiro como figura dos discursos morais e normativos.
Peter Mario Kreuter — historiador especializado nas tradições vampíricas históricas do Sudeste Europeu e dos Bálcãs.
Sabine Planka — pesquisadora de literatura infantil e juvenil que contribui com análise do vampiro na ficção para crianças e jovens.
Hans-Peter Weingand — investigou como os vampiros "chegaram" simbolicamente à Estíria.
Martina Zerovnik — curadora e pesquisadora que analisa vampirismo e feminilidade moderna em obras como Carmilla, Dracula e Twilight.
O nível do projeto fica claro quando se considera que Laurence Rickels — cujas Vampire Lectures são referência obrigatória em cursos de teoria cultural nas universidades americanas e europeias — integrou a publicação. Isso não é exposição local sobre tradição regional. É projeto que dialoga com o mainstream dos estudos culturais internacionais.
A tese central: o vampiro como espelho da modernidade
O texto editorial do livro enuncia sua proposição central com precisão: os vampiros, como figuras sombrias e demoníacas, representavam na literatura do século XIX um contra-modelo à luminosa e racional Aufklärung (Iluminismo). Desde então, movem-se sempre entre polos — antes de tudo entre racionalidade e (super)stição, intelecto e impulso, sonho e realidade, comunidade e indivíduo, entre o próprio e o estranho.
E vai além: em cada sociedade, em cada época, a figura vampírica aparece em forma diferente e recebe novas características. Ela reflete assim temas com os quais o ser humano precisa se confrontar em seu mundo vivido. Como "outsider", os vampiros representam sempre também uma contraposição e abrem com isso novos pontos de vista sobre as condições dominantes e os caminhos estabelecidos para lidar com as grandes questões de vida e morte, conhecimento, identidade e amor.
Isso não é texto de curadoria decorativa. É uma declaração filosófica que posiciona o vampiro como ferramenta de análise cultural — não como objeto de entretenimento a ser exibido em vitrine.
A curadora Martina Zerovnik declarou que "o vampiro é expressão da busca por identidade e o desejo ou o fracasso de encontrar um lugar na comunidade. Ele é o estranho em nós mesmos e em nossa sociedade." E em outra passagem da mesma entrevista, ela é ainda mais direta: "o vampirismo é antes de tudo feminino, representa emancipação e a libertação das mulheres. Não-morto não é mais um problema — significa vida eterna, beleza e sex-appeal. E força."
A exposição: o que Graz montou entre janeiro e outubro de 2014
A exposição foi uma iniciativa sobre a figura do vampiro (e seus parentes) em literatura, cinema, mitologia trivial, crença popular, ciência. Mas a forma como foi montada revela sua ambição real.
Ela incluía documentos históricos — entre eles quinze livros emprestados pela Biblioteca Estadual da Estíria, datados de 1752 a 1929, que formavam o fundamento literário da mostra. Incluía manuscritos, gravuras, pinturas e textos explicativos. Incluía materiais audiovisuais. Incluía design contemporâneo e instalações. E incluía — detalhe revelador da proposta — workshops de vampiros para crianças de 6 a 12 anos durante a Semana Santa de 2014, repetidos em determinadas datas nas férias de verão.
Esse último ponto merece atenção. Um museu que oferece workshops vampíricos para crianças não está tratando o vampiro como ameaça moral ou curiosidade adulta. Está tratando-o como arquétipo educativamente útil — uma ferramenta para que crianças explorem questões de identidade, alteridade, medo e desejo dentro de um espaço seguro e imaginativo. A pergunta que os textos educativos da exposição colocavam era direta: "Quanto de vampiro existe em nós?"
O que este projeto confirma para o campo que a Rede Vamp cultiva
A Rede Vamp existe desde 2003. O evento anual que nomeia nossa Gala Sombria chama-se Carmilla desde 2012 — não por coincidência decorativa, mas porque Carmilla de Le Fanu representa exatamente o vampiro que a Rede Vamp reconhece como precursor legítimo da tradição: aristocrático, psicológico, erótico, feminino e irredutível ao horror grosseiro.
O que o GrazMuseum fez em 2014, com os instrumentos da academia europeia, os curadores do museu fizeram com o mesmo argumento que a Rede Vamp opera há décadas com os instrumentos da prática: o vampiro não é monstro de entretenimento. É um dos maiores arquétipos culturais do Ocidente moderno — e como tal, carrega profundidade filosófica, histórica e estética que o sensacionalismo pop sistematicamente desperdiça.
A diferença é de endereço. O GrazMuseum chegou a essa conclusão pelas rotas da história literária, dos estudos culturais e da museologia. A Rede Vamp chegou pela via da Cosmovisão, da linhagem Sahjaza e da prática continuada. Mas o espelho que cada um está segurando mostra a mesma imagem.
O vampiro como "espelho do homem na modernidade" — essa formulação do projeto do GrazMuseum poderia constar como epígrafe de qualquer artigo desta série.
Na Parte 2: aprofundamos os temas centrais do livro — o vampiro folclórico dos Bálcãs, a transformação em figura literária, Carmilla antes de Drácula, o vampiro como contra-modelo do Iluminismo, o vampiro feminino como ruptura cultural, e a trajetória do arquétipo da superstição funerária regional ao entretenimento global.
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