Drácula Está de Volta ao Palco — E a Noite Brasileira Nunca Esteve Tão Viva
- Lord A Andreas Axikerzus Sahjaza
- 10 de jun.
- 6 min de leitura
Por Rede Vampyrica — redevampyrica.com

Não é coincidência.
Em menos de um ano, o vampiro passou por três momentos culturais significativos no Brasil: a peça Madame Blavatsky — Amores Ocultos, com Mel Lisboa, trouxe ao palco a fundadora da Sociedade Teosófica e toda a atmosfera magnética do ocultismo vitoriano que moldou a forma como o Ocidente pensa força vital, presença e influência invisível; os mesmos territórios que o imaginário vampyrico sempre habitou.
E a considerar suas raras fotos na juventude (menos conhecidas) ela era uma bela Vamp, falo disso neste livro.
Love Kills, que já analisamos aqui neste blog, entregou o melhor filme de vampiro feito no Brasil em décadas: denso, esteticamente sério, sem desculpas.
E agora, em junho de 2026, a Segundo Ato Entretenimento estreia Drácula — O Musical no Teatro das Artes, em São Paulo.
A noite brasileira está viva. E isso diz algo.
Um breve histórico — porque o vampiro no Brasil tem mais de 200 anos
Antes de falar do musical que chega em junho, vale o contexto que muita gente desconhece: o vampiro na cultura brasileira não começou com a internet, não começou com Crepúsculo e não começou nos anos 1990 em uma famosa emissora.
No audiovisual brasileiro temos seis novelas com personagens do gênero — Drácula na TV Tupi; Um Homem Muito Especial, na Band; Vamp e Beijo do Vampiro, na Globo; Caminhos do Coração e Mutantes, na Record — além de um personagem humorístico do Chico Anísio, dois vampirinhos simpáticos nos quadrinhos infantis e algumas beldades fatais dos quadrinhos de terror = como Mirza e Nayara.
A questão cultural de vampiros na produção cultural literária, teatral e no audiovisual brasileiro é bem extensa e rende quase uns 180 anos de história desde a publicação de Octávio e Branca — Maldição Materna lá em 1845. Desvende esses quase 200 anos de vampiros no imaginário brasileiro.
No teatro, o vampiro passou pela comédia, pelo horror e pelo drama em múltiplas montagens ao longo do século XX — frequentemente como pretexto para explorar exatamente os temas que o arquétipo carrega com mais força: a sedução que dissolve, a presença que antecede a palavra, o desejo que ultrapassa a fronteira que deveria ser definitiva.
Mais recentemente, em 2025, Drácula — Um Terror de Comédia trouxe Tiago Abravanel ao Teatro Bravos em São Paulo numa versão off-Broadway do clássico, com direção de Ricardo Grasson e Heitor Garcia — a peça dos autores Steven Rosen e Gordon Greenberg havia sido aclamada em Nova York e Londres antes de chegar ao Brasil.
O ponto é: Drácula no palco brasileiro não é novidade. O que muda em cada montagem é o registro — e o que o registro revela sobre o que a cultura quer fazer com o arquétipo naquele momento. E particularmente estamos muito empolgados com esta montagem, aliás desvende outros momentos de Drácula nos palcos brasileiros.
O que a Segundo Ato traz de diferente
Drácula — O Musical da Segundo Ato Entretenimento não é comédia, não é paródia, não é desconstrução irônica do mito. É o registro que mais raramente aparece no teatro musical brasileiro: o da beleza sombria levada a sério.
A sinopse que a produção divulgou é precisa sobre o posicionamento: "entre sedução, medo e sacrifício, a história revela que o verdadeiro horror pode se manifestar de formas extremamente belas e silenciosas."
Para quem lê este blog, essa frase não é slogan de marketing. É descrição de território.
A Segundo Ato não surge do nada com essa proposta. Trata-se de um núcleo criativo coerente que vem construindo uma identidade estética específica dentro do teatro musical independente paulista — com Os Sons de Notre Dame e O Fantasma — In Concert antes deste Drácula.
Rodrigo Gomes, que acumula idealização, cenografia e figurinos, Ella Dalcin como dramaturga residente, Glaucia da Fonseca como diretora com mais de 30 anos de experiência transitando entre grandes produções e teatro independente, e Di Angelo Mathias como diretor musical fixo — todos já trabalharam juntos.
O espetáculo não é projeto isolado. É continuação de algo que vem se desvelando nos palcos e encantando muitos afine s do "Sangue".
O elenco e o que ele revela sobre o projeto
Diego Luri como Van Helsing é, no contexto desta montagem, a escolha mais fascinante do elenco. Quem o conhece de Shrek, A Bela e a Fera e O Fantasma da Ópera — todos protagonistas liminiares, monstros que escondem humanidade, figuras entre dois mundos — sabe que ele chegou ao caçador de vampiros por dentro do arquivo dos perseguidos.
O movimento é narrativamente rico: o ator que passou anos habitando a sombra agora persegue quem a encarna.
Nando Pradho como Drácula carrega o peso de marketing e o peso de mito simultaneamente. Sua carreira no musical brasileiro gravitou em torno de personagens de presença monumental — figuras que precisam parecer ter atravessado séculos antes de abrir a boca.
Isso é exatamente o que Drácula exige. Não é vilão. É força que precede qualquer caracterização.
Camila Vergasta como Mina completa o triângulo que qualquer leitura cuidadosa do romance de Stoker reconhece: não a vítima passiva, mas o ser liminar que está entre dois mundos — o desejo de permanecer e a necessidade de ser transformada.
Para os leitores desta série de artigos: Mina é o personagem que Bataille descreveria como habitando a fronteira entre descontinuidade e dissolução.
DRÁCULA UMA CRIAÇÃO COLETIVA E PRINCIPALMENTE DOS PALCOS TEATRAIS
É interessante lembrar que Drácula possui uma relação histórica muito mais profunda com o teatro do que normalmente se imagina. Antes mesmo da publicação do romance de Bram Stoker, em 1897, uma leitura dramática intitulada "Dracula, or The Un-Dead" foi apresentada no Lyceum Theatre, em Londres, dirigido por Sir Henry Irving (supostamente o muso inspirador do conde).
Organizada pelo próprio Bram Stoker, a encenação tinha como principal objetivo registrar os direitos teatrais da obra, demonstrando que o vampiro já nascia não apenas como personagem literário, mas também como potencial figura de palco.
Curiosamente, o Drácula que habita o imaginário popular contemporâneo não corresponde exatamente ao personagem descrito por Stoker. No romance original, o conde é inicialmente um aristocrata envelhecido, de aparência estranha e até mesmo portador de um bigode, muito distante da imagem elegante e sedutora que conhecemos hoje.
Essa transformação ocorreu décadas depois, através das adaptações teatrais de Hamilton Deane e John L. Balderston. Foi nesse contexto que Bela Lugosi consolidou a figura do vampiro aristocrático, sofisticado e hipnótico.
O figurino icônico, especialmente a capa negra, surgiu em grande parte por necessidades cênicas do teatro e acabou tornando-se um dos símbolos mais reconhecíveis da cultura popular.
Posteriormente, o diretor Tod Browning levou essa interpretação para o cinema em 1931, eternizando uma imagem que, desde então, se tornou o rosto definitivo de Drácula para gerações inteiras.
Por que isso importa para a comunidade vampyrica
Porque o momento cultural que está sendo construído no Brasil não é acidente.
Madame Blavatsky com Mel Lisboa, Love Kills, Drácula — O Musical — são três produtos culturais de registro sério, estéticamente elaborados, que chegam num intervalo curto e que todos dialogam com o mesmo imaginário que a Rede Vamp habita desde 2003 e a tradição Sahjaza desde 1976.
Isso não é a maré chegando. É confirmação de que o imaginário noturno, vampyrico e sombrio tem substância cultural suficiente para sustentar produções de qualidade em múltiplos formatos simultaneamente.
O que a Rede Vamp sempre afirmou — que o vampiro não é estética de nicho, mas arquétipo com dois mil anos de genealogia verificável que ressurge periodicamente com força renovada porque toca algo permanente na experiência humana — está sendo confirmado pelos palcos e pelas telas de São Paulo em 2026.
E isso é bom.
Para a cultura. Para a cena. Para todos que construíram algo sério dentro deste campo ao longo de décadas. Vamos reviver todo este universo neste infográfico exclusivo?
Serviço
Drácula — O Musical Segundo Ato Entretenimento
Datas: 10 e 17 de junho de 2026 — 20h Local: Teatro das Artes — Av. Rebouças, 3970, Store 409 — Pinheiros, São Paulo Classificação: 14 anos Ingressos: R$70,00 a R$140,00
Vendas: eventim.com.br Instagram: @segundoatoentretenimento
Elenco: Nando Pradho (Drácula), Camila Vergasta (Mina), Rodrigo Garcia (Jonathan), Pedro Navarro (Renfield), Diego Luri (Van Helsing), Abner Debret (swing)
Equipe criativa: Idealização, cenografia e figurino: Rodrigo Gomes | Direção: Glaucia da Fonseca | Direção musical: Di Angelo Mathias | Adaptação e versões: Ella Dalcin
Leitura complementar:
[Da Literatura Gótica ao Pós-Humano: 2000 Anos do Imaginário Vampírico]
Antes do Fluido: Da Densidade Arcaica do Vampiro ao Cascarrão Mesmerista
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